30 de junho de 2013

Aritmética sexual: cadê a equação?

Eu li um artigo no Yahoo com o qual me identifiquei e serviu de inspiração para o assunto que escreverei agora: o comportamento sexual esperado pela sociedade, sendo este definido pelo gênero. Falar sobre isso é ainda mais conveniente por ter uma relação estreita com minha última postagem. A mulher continua em liberdade condicional...

Se você precisar mencionar qual a quantidade de parceiros obteve em sua vida íntima para alguém, é possível que diga a verdade (especialmente se ela não for comprometedora, segundo seu entendimento), mas não é raro acontecer de a pessoa mentir que tenha tido menos parceiros ou até mesmo mais conquistas sexuais. A primeira possibilidade condiz mais com as “santinhas” precavidas, enquanto o segundo caso é mais próprio do macho predador. (risos) Parece que isso gera uma espécie de “confissão”, pois a natureza de sua reação dependerá do seu sexo, do padrão comportamental que deseja seguir (ou divulgar) e possivelmente até mesmo de quem irá receber sua resposta. Talvez a pessoa até não se sinta intimidada por essa questão estar “vasculhando” sua vida privada, mas sim porque o indivíduo já teme o prejulgamento a respeito de um número. Sim, um número. Mas não é um número qualquer.

Um número tende a nos cegar. Ele é frio, estático e sequer conta a história por trás dele, mas pode ser implacável dependendo da avaliação subjetiva que recebe. A sociedade machista em que vivemos estabelece um padrão de vida sexual mais comedido e discreto por parte da mulher. As normas sociais estabelecem critérios e parâmetros diferentes para os dois sexos e, desde pequeno, você é incentivado a aceitar as regras do jogo sem contestar (pois sempre foi assim) e agir de maneira que os seus pais não venham a te censurar. Somos criados a partir de rótulos, tendências e influências que guiaram a humanidade durante séculos e qualquer mudança é desencorajada, mesmo que ela respeite a individualidade de cada um.


Quando você foge dos padrões estipulados pelos outros (ou mesmo perante a História) e não liga para a opinião alheia, parece que se torna um pária. Afinal, você está demonstrando que é capaz de seguir seu próprio caminho sem “prestar contas” aos censores de plantão e isso incomoda bastante. As pessoas não estão muito dispostas a rever certos conceitos ou aceitar a singularidade humana, mas sim a deixar claro que tal comportamento não é adequado... ou esperado. Em alguns casos, acredito que lá no fundo possa haver uma inveja demagógica com tais atitudes, pois elas podem refletir uma coragem e autonomia que gera despeito. Tamanha ousadia! Os defensores da moral e dos bons costumes sentem-se plenamente justificados. E falando especificamente da mulher, em geral ela parece ter de se adaptar a esse novo mundo de maneira “cautelosa”, pois não é ingênua: sabe o que mundo “espera” dela entre quatro paredes. No entanto, espera-se que ela mesma saiba o que deseja para si, sem pressão e sem retaliação.

É bom deixar claro: uma pessoa pode defender seu próprio ponto de vista (ainda mais se ele for espontâneo e haver conforto nisso), mas é admirável desejar uma realidade em que haja mais neutralidade com a vida sexual das pessoas sem colocar em “xeque” a reputação delas. Nesse sentido, é fácil contextualizar o problema com as meninas. 

Falando-se da vida real, não temos como prever quanto tempo vai durar um relacionamento ou mesmo uma “ficada”. Pode durar tanto horas, quanto muitos anos. Assim, as pessoas têm um passado em sua intimidade e, mesmo a despeito de um número, ele não deve servir de parâmetros conclusivos para condenar a “conduta sexual” de alguém. Um número é uma maneira simples e injusta de reforçar o machismo.

Segundo o artigo que li, a Ohio State University realizou uma pesquisa que reforça aquilo que disse sobre mentir a respeito do número de parceiros(as). Os homens procuram aumentar o número porque desejam ser vistos como “homens de verdade”, viris e com experiência sexual; já as mulheres omitem alguns parceiros para ficarem bem na foto como respeitáveis “garotas de família”. Detalhe interessante: a pesquisa foi realizada com um público de estudantes universitários entre 18 e 25 anos enquanto eles passavam por detectores de mentiras. Trata-se de um segmento jovem que pode falar com propriedade sobre um assunto que faz parte de suas vidas.

Esse ciclo vicioso, sustentado e reforçado por um padrão de comportamento que se autodenomina “correto” ou “ideal”, favorece a manutenção de normas sociais que valorizam o silêncio em detrimento de sua própria sexualidade, excluindo ou omitindo suas preferências. Com exceção das pessoas que mantém seu posicionamento com autonomia própria (incluindo as pessoas que defendem a castidade), isso promove insegurança (eu sou um produto pré-concebido da sociedade), insatisfação (não posso deixar de seguir as regras pré-estabelecidas, sob pena de pagar caro por isso) e uma desconfiança com o pessoal que age com uma maior liberdade sexual, sem que isso sugira, necessariamente, devassidão.

27 de junho de 2013

Liberação sexual feminina sem libertinagem e condenação prévia



Parece coisa de fofoca, mas recentemente a atriz global Mariana Ruy Barbosa fez a seguinte declaração: “não adianta querer um príncipe se você não é uma princesa. É muito difícil uma mulher rodada encontrar um cara legal. Só vai encontrar sapo”. Bem, primeiro devo dizer que a Mariana tem todo o direito de ter essa opinião politicamente e historicamente “correta” a respeito das mulheres em geral. Mas agora irei questionar a ideia adorável de que apenas mulheres virgens e puritanas tenham mais chances de serem felizes no contexto conjugal.

Logicamente, ser “rodada” sugere um avaliação bastante subjetiva a respeito do número de parceiros de que uma garota deva ter para adotar esse infame título, mas vamos simplificar as coisas: preservar-se para um homem é a melhor e mais sábia “estratégia”? Ao meu ver, é tolice supervalorizar a virgindade feminina no sentido de ver isso como uma garantia de que o futuro amoroso será positivo. Um “investimento” a longo prazo. É lógico que cada garota faz do seu corpo o que bem entender, mas tenho certeza de que a maioria das mulheres sexualmente experientes possuem critérios para julgar se devem ou não transar com determinado homem. Não estou falando de aspectos “práticos” envolvendo meramente uma vagina lubrificada ou a oportunidade de fazê-lo, mas sim de crer que uma mulher do século XXI possui capacidade e autonomia de desfrutar de uma vida sexual ativa sem ter sua reputação prejudicada. Pior, sem ser julgada por outros segmentos da sociedade que defendem tradições como só perder a virgindade na noite de núpcias.

Não me entenda mal. É lógico que cada mocinha deve viver sua vida íntima conforme sua própria “filosofia” (especialmente se sentir feliz com ela), mas acho interessante notar que haja tanta diferença prática entre os sexos. Até mesmo se considerar a educação familiar entre as meninas, geralmente é comum observar uma semente de repressão sexual sendo plantada no coração da guria com “bons” pretextos. Não importa quantos séculos passem, parece vigorar uma ditadura machista (e religiosa, histórica, sociológica) de que a castidade feminina é o caminho mais belo e “correto” de se viver dentro da sociedade. 

Será que, mesmo a despeito dos pesares e dos maus exemplos, as meninas não deveriam se sentir mais tranquilas com sua própria vida sexual sem se sentirem molestadas pela censura alheia ou mesmo sua própria consciência (geralmente construída por fortes influências externas nesse quesito)? Pode-se argumentar que hoje tecnicamente qualquer garota conquistou sua liberdade sexual, mas com exceção do livre arbítrio individual, será que existe realmente uma visão “democrática” a respeito dessa conquista chamada liberdade sexual entre as moças?

  
Ora, a liberdade não precisa ser um sinônimo de libertinagem, devassidão e tantas outras denominações vulgares. Não estou dizendo que isso não exista, mas sim que é tolice ser taxativo em julgar as mulheres pelo simples fato de terem vida sexual ativa. Cheguei a ler em fóruns sobre o assunto e fiquei surpreso com a quantidade de pessoas que defenderam um estilo de vida mais “puro” entre as meninas. Os homens, então, geralmente aplaudiam de pé essa resolução sem olhar para o próprio umbigo, privilegiando séculos de uma educação machista e antiquada (minha opinião). Claro, certamente as pessoas não devem mensurar um meio termo: a mocinha só pode ser uma santa angelical ou uma vadia desavergonhada. 

Ainda assim, é interessante notar que mesmo as mulheres de “hoje” continuem insistindo em assumir o caráter “proibitivo” do sexo. Será que adotar essa visão não é uma forma também de subestimar a própria mulher em matéria de seu “bom senso” sexual? Algumas pessoas podem argumentar que manter a virgindade é uma forma de não se envolver com cafajestes ou pilantras – entregando o ouro ao “bandido” – mas me parece que essa é apenas uma forma de apostar perigosamente no homem que será seu futuro marido, enquanto a jovem se priva de viver diferentes e produtivas experiências de cunho sexual no decorrer de suas relações amorosas.

Já conversei com algumas mulheres que se preservaram para o casamento e, anos depois, se arrependeram de adotar essa “estratégia” de manter a virgindade até o leito nupcial. Certamente existem os exemplos contrários também, eu sei. Mas o que se vê a partir desses relatos é que seguir o “script” não exclui seus riscos. Se pararmos para pensar, uma mulher mais experiente na cama teve muito mais chance de conhecer diferentes homens na intimidade e assim fazer uma “pesquisa” mais aprofundada do cara certo para si, embora isso não se restrinja ao sexo, naturalmente. Ainda assim, isso oferece ainda mais "vivência" e oportunidade de amadurecimento às moças.

Portanto, a ideia de ter critérios sólidos para dividir os lençóis com alguém parece ser uma forma excelente de evitar “quebrar a cara” sem sufocar a própria sexualidade. Eu mesmo percebo, pelo menos em garotas com certo nível de instrução e educação, que ser livre para transar não significa que elas não se questionem se “esse é o momento adequado”, “se esse cara é merecedor” e assim por diante. Logo, não falta consciência e análise crítica a respeito de tais decisões.

Fora essas questões, encontrar uma pessoa legal para si sugere sorte e perseverança. Adotar bons critérios vai ajudar a filtrar as pessoas que passarem em sua vida. Daí a importância de namorar mais e não colocar suas esperanças românticas virginais no colo do “futuro noivo”, pois este é um processo de autoconhecimento, de descobertas e de “sintonia”. Infelizmente, o hímen não conta com um radar próprio para “príncipes”. Talvez o cérebro e o coração tenham mais mérito nesse caso. Eu fico pensando, aliás, se certas ideias apenas favorecem um casamento precoce pelas razões erradas...

Apenas veja.

Olivia inspi' Reira (Trapnest) - A Little Pain
Tradução

Apenas abram os links, vocês entenderam.
Obrigado.

24 de junho de 2013

Fundamentalismo religioso: uma doença mental?

Eu li hoje em um link da Revista Galileu, sem muitos detalhes, que uma pesquisadora da Universidade de Oxford chamada Kathleen Taylor disse que um dia o fundamentalismo religioso poderá ser considerada uma doença mental e poderá haver cura para essa patologia. Detalhezinho básico: ela não quis se restringir ao infame fundamentalismo islâmico, cujas práticas e ideologias são geralmente fáceis de serem condenáveis (como os atentados suicidas a bomba e o extremo rigor machista, por exemplo) ou no mínimo causam estranheza. Pessoalmente, eu achei isso interessante.

Pode ser uma frase polêmica e talvez pessoas mais religiosas irão contestar duramente as palavras dessa cientista, mas se você pensar bem, não existem exercícios religiosos que parecem provocar uma lavagem cerebral nos “fiéis”? Posso estar mexendo em um assunto para lá de delicado, mas acredito que determinadas formas de vivenciar a fé também podem prejudicar o ser humano e a sociedade sob pretextos fanáticos. Talvez o maior exemplo disso seja o simples fato de querer impor suas crenças em detrimento de outras (incluindo o ateísmo e o agnosticismo), mesmo que isso signifique “influenciar” a população a se comportar e pensar da maneira “certa”. Já li uma citação que dizia o seguinte: uma coisa é você achar que está no caminho certo. Outra coisa é você achar que o seu caminho é o único.

Transcrevo aqui um parágrafo que li sobre a notícia e julgo ser importante para a reflexão: 

“Alguém que se tornou, por exemplo, radical em relação a uma ideologia - podemos deixar de ver isso como uma escolha pessoal resultante do puro livre-arbítrio e podemos começar a tratar isso como algum tipo de distúrbio mental”, disse a pesquisadora. “De várias formas isso pode ser uma coisa muito positiva porque sem dúvida as crenças em nossas sociedade podem provocar muitos danos.”


As pessoas têm muito a aprender sobre como saber lidar e conviver com a diversidade sem querer doutrinar o próximo ou entender que é “melhor” do que fulano. Além disso, é convenientemente fácil apontar os defeitos e fraquezas alheias segundo seu próprio caleidoscópio de julgamento pessoal. Mesmo entre diferentes religiões, é comum enxergar uma rivalidade acirrada sobre quem está “certo” e o desprezo pela crenças dos outros, sempre procurando a “supremacia religiosa”.

Nesse mês, a Comissão de Direitos Humanos, presidida pelo deputado Marcos Feliciano, autorizou o fim da proibição, pelo Conselho Federal de Psicologia, de tratamentos com o intuito de reverter a homossexualidade (essa estupidez precisará ser submetida a outras votações em outros quóruns para ter validade prática). Isso é popularmente denominado como a suposta “Cura Gay”, embora nem mesmo a OMS (Organização Mundial de Saúde) considere que o homossexualismo seja uma doença há duas décadas. É perceptível que existem indivíduos que desejam perpetuar suas crenças a todo custo, mesmo que isso interfira na vida de outros de maneira cruel. Eu não tenho ilusões a respeito das motivações por trás dessa iniciativa. Quem acha que ela pretende ajudar os gays, é cego ou muito ingênuo, pois em tempos em que o casamento civil entre os mesmos sexos é permitida – e ninguém tem nada a ver com isso – essa iniciativa, se for vingar, só vai alimentar o preconceito.

Em tempos de manifestações constantes, o assunto acima já serviu de pauta. Precisamos ficar atentos o tempo todo a respeito de pessoas que não sabem ser moderadas com algum bom senso e humanidade e não pretendem preservar o que é “diferente”. Radicais tendem a eliminar a liberdade coletiva e a fomentar conflitos perigosos em defesa de suas ideias. Em última análise, acho importante (ou prudente) que mesmo o fiel não seja um simples receptáculo vazio de ensinamentos e crenças tornando-se uma marionete em mãos “sagradas” sem fazer uso de consciência, livre raciocínio e análise crítica.

Até mesmo o Pinóquio procurava fugir de sua natureza artificial e inanimada...

23 de junho de 2013

Eu, Eu, Eu, sempre Eu!

Me lembro como se fosse ontem, quando a Miki disse que eu viria para o blog para eu poder adocicar mais as coisas.
Mas parece que todo esse tempo a qual estive por aqui, eu falei mais de mim mesmo do que qualquer outra coisa.
Não sei se minhas experiências são validas...
Estou começando a achar injusto eu sempre fazer isso.
Porque mais uma vez, o motivo de eu estar aqui, sou eu.
Talvez mais abatido do que nunca. Você leva um soco na cara sem ter a mínima idéia de onde ele veio.
Você se sente completamente desnorteado, sem direção, sem ter um caminho para seguir.
E o que fazer agora?
Depois de tanto lutar e batalhar...
É campeão, está na hora de ficar pelas cordas agora, e tentar pensar quando você deve voltar o ringue, mas quando voltar, volte por um novo objetivo, porque ser nocauteado novamente pelo o mesmo, e a mesma coisa de dizer que você voltou simplesmente para perder.

18 de junho de 2013

O despertar de um gigante adormecido?

Recentemente temos observado diversas manifestações da população brasileira nos mais diferentes estados e até mesmo no exterior com diferentes (e válidas) motivações, como a defesa da diminuição de preços de passagens de transporte, o protesto contra o alto custo de vida, os custos exorbitantes de importantes eventos esportivos no país (canalizando muitos investimentos para outros setores menos prioritários e negligenciando a educação, a saúde, a segurança etc.) e assim por diante. Como acredito que ninguém acredita que o Brasil está nas condições ideais que zelam pela bem estar e a dignidade do seu povo, entendo que muitos devem apoiar essa causa.

Eu vejo isso com interesse e surpresa, pois fazia mais de duas décadas que não testemunhava tamanha revolução comportamental nos indivíduos. Talvez a última vez que um movimento assim tenha marcado o país seja retratado pelos “caras pintadas” no tempo do impeachment do Presidente Collor em 1992 (hoje um querido Senador eleito), na qual muitos jovens pintaram seus rostos com as cores da bandeira e pediam a saída do Presidente após a divulgação de diversos escândalos. Aliás, minto: há pouco mais de um mês atrás, parece que parte da população ficou um tanto desesperada com os boatos envolvendo o fim do Bolsa-Família e houve considerável pressa em buscar esse dinheirinho nas agências da CEF. Acho que nossa Presidenta ficou muito aflita pelas próximas eleições.

"This is Brazil, bitches!"  

Só sei que, desde então, excetuando reivindicações pontuais de certos segmentos (geralmente profissões sindicalizadas), parece que as pessoas estavam quietas e adormecidas. Assim, ao meu ver, conforme os anos se passaram, parecia que o padrão brasileiro de vivenciar a vida consistia em votar mal pelos seus representantes (sem generalizar, vamos lá) e depois se tornarem ovelhas domesticadas. Hoje parece que o silêncio e a indiferença pararam de ser adotadas. Não sei dizer se isso é um fenômeno absolutamente passageiro e voltaremos ao tempo do “torpor” em breve, mas acho admirável como é válido redescobrir um povo que tem consciência, como cidadão, que tem força e voz ativa para demonstrar sua insatisfação e buscar mudanças que beneficiem o Brasil.

Chega de pão e circo. Confiar apenas no voto é tolice. Viver em uma democracia sugere que o povo possa saber lutar por uma causa válida e justa. Dificilmente as coisas “acontecem” sem haver mobilização e comprometimento com uma meta. Podemos utilizar uma visão crítica a respeito da realidade em busca de um amanhã diferente. Mesmo repudiando ações de agitadores, criminosos e “oportunistas” que podem conter abusos e vandalismo gratuito, talvez um pouco de “barulho” agilize esse processo de transformação.

Pessoalmente, não sou otimista ou tão “revolucionário” a ponto de pensar que o país irá se tornar um exemplo para outras nações alcançando uma utopia, mas mesmo em se tratando de gradativas melhorias a curto e médio prazo, é fascinante notar que um povo unido e engajado tenha o poder direto e indireto de se fazer ouvido e ser notado. Isso é uma lição que os nossos governantes e os segmentos mais privilegiados da sociedade preferem ver a gente esquecer.

6 de junho de 2013

Em defesa da vida... de quem?



Geralmente, não gosto de nenhuma notícia que remeta à política, mas como isso diz respeito diretamente à vida da população brasileira – e em especial, às mulheres – acho que vale a pena divulgar e alertar sobre a possível criação de uma lei. 

No dia 5 de junho (sim, bem recente), foi aprovado o Projeto de Lei (PL) 478/2007 que estabelece o Estatuto do Nascituro e prevê, entre outras coisas, o direito ao pagamento de pensão alimentícea (ainda sem valor/prazo/critérios previstos e apelidado por pessoas contrárias à iniciativa de Bolsa Estupro) aos embriões concebidos por meio de violência sexual (uma maneira de estimular a mulher a não praticar o aborto), além de ajuda psicológica à vítima (naturalmente). Essa despesa seria repassada ao pai do bebê, se for localizado e tiver condições para tanto (perceba que nesse caso o pai seria "reconhecido" e a mãe teria eternos laços com um criminoso), mas o Estado arcaria com o ônus em último caso (uma possibilidade bem mais provável). Vale ressaltar que o texto original previa um salário mínimo mensal até o bebê completar 18 anos! Após a gestação, se a mãe não quisesse assumir a criança, poderia colocá-la para a adoção, como se esse processo fosse simples e essa solução fosse satisfatória. 


A proposta segue agora para análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pelo plenário da Câmara antes de seguir para o Senado. Como se vê, o projeto tem como escopo fornecer proteção jurídica e social precoce a um "projeto de ser humano" que ainda vai nascer ao considerar que a vida humana começa na concepção, o que ainda não é consenso entre os cientistas. Isso vale para a fertilização in vitro, clonagem ou quaisquer outros meios científica e eticamente aceitos, pois está no texto da lei. Detalhe: a aprovação do projeto na quarta-feira foi uma ação coordenada do líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), para garantir um trunfo à bancada evangélica que promoveu às 15 horas do mesmo dia uma manifestação diante do Congresso em defesa “da vida, da família e contra o aborto”.

Ao considerar que nosso país é laico, não devemos pautar nossas decisões nesse âmbito por quaisquer princípios religiosos, pois isso é um assunto fundamentalmente científico. Vale lembrar que a mulher não é uma incubadora artificial, mas um ser vivo que tem consciência, sentimentos, emoções, direitos, deveres e assim por diante. Em casos extremos e/ou delicados, a decisão de ter um filho ou não supera o contexto biológico.

Ao meu ver, acho que o Estado não deve intervir financeiramente no caso porque temos outras prioridades e o Brasil já conta com “Bolsas” suficientes, além de isso não prevenir o cerne do problema. Aliás, o Estatuto da Criança e do Adolescente contém um lindo texto, mas a prática é muito distante da teoria. O ideal é a gente promover o aumento generalizado e indiscriminado de gestações? Do ponto de vista financeiro, seria mais interessante diminuir pelo menos metade dos ganhos e privilégios de nossos políticos para aliviar mais o orçamento. Se analisarmos superficialmente o caso, parece que o Projeto de Lei é “bonzinho” e valoriza a vida humana, mas eu fico preocupado com a ideia disso generalizar a criminalização do aborto, causando um retrocesso nos direitos das mulheres (no Código Penal, o aborto é permitido em caso de estupro ou risco de vida da mãe) e, de quebra, incentivando a adoção de abortos perigosos e ilegais. Pelo menos as mulheres ricas têm a opção de se sujeitar a isso de maneira mais segura, não é mesmo?

Sei que um debate acirrado favorece o aparecimento de diferentes vertentes a respeito do que seja melhor para a defesa da vida e o direito da mulher, mas vejo com preocupação essa lei que tem claramente a ideia de supervalorizar a vida de um embrião gerado em circunstâncias pavorosas em detrimento da mãe e resultando em mais gastos para o país. Será que isso não abriria precedentes para criminalizar o aborto em quaisquer circunstâncias? Eu pessoalmente defendo maior autonomia no corpo da mulher pela sua respectiva "dona". Para você ter uma ideia de como o assunto é sério, existe um trecho que diz que se a mulher tiver algum problema de saúde e o tratamento, durante a gestação, colocar em risco a vida do embrião, ela não poderá fazê-lo. Não é interessante? É preferível que a mulher corra o risco de morrer do que o embrião.

Existem muitas questões a serem respondidas e outros pontos que sequer foram mencionados aqui, mas acho providencial a população observar o andamento desse Projeto de Lei e qual será o seu conteúdo final, caso ele vingue. É preciso ficar atento porque esse Projeto de Lei parece prometer o "controle legislativo" da gestação de todas as mulheres de maneira radical. Não sou a favor do aborto arbitrário, mas sim em situações que julgo ser necessário, como é o caso de estupro ou mesmo a falta de condições da mãe em tê-lo. Outro detalhe interessante é que mesmo os métodos contraceptivos têm lá a sua possibilidade de falha, mesmo que estejam baseadas em pequenas porcentagens.

Se você é contra esse Estatuto, vá a esse link e assine a petição:
http://www.avaaz.org/po/petition/Diga_NAO_ao_Estatuto_do_Nascituro_PL_4782007/

Aos interessados, haverá também um ato contra a Estatuto do Nascituro em Sampa no dia 15 de junho (sábado):
https://www.facebook.com/events/501598106576615/?ref=3


LINKS INFORMATIVOS



http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=770928&filename=Parecer-CSSF-19-05-2010 – proposta “modificada”.

http://www.gineco.com.br/metodos-contraceptivos/tudo-sobre-anticoncepcionais/seguranca-dos-anticoncepcionais – métodos contraceptivos e porcentagens de falhas.


Nota: é lógico que me posicionei sobre o assunto, mas procurei ler sobre isso em diferentes sites. Da mesma forma, é perfeitamente possível que tenha me equivocado em algum aspecto informativo. Se o assunto te interessar, procure se informar mais sobre ele. =)