Se você precisar mencionar qual a
quantidade de parceiros obteve em sua vida íntima para alguém, é possível que
diga a verdade (especialmente se ela não for comprometedora, segundo seu
entendimento), mas não é raro acontecer de a pessoa mentir que tenha tido menos
parceiros ou até mesmo mais conquistas sexuais. A primeira possibilidade condiz
mais com as “santinhas” precavidas, enquanto o segundo caso é mais próprio do
macho predador. (risos) Parece que isso gera uma espécie de “confissão”, pois a
natureza de sua reação dependerá do seu sexo, do padrão comportamental que
deseja seguir (ou divulgar) e possivelmente até mesmo de quem irá receber sua
resposta. Talvez a pessoa até não se sinta intimidada por essa questão estar
“vasculhando” sua vida privada, mas sim porque o indivíduo já teme o
prejulgamento a respeito de um número. Sim, um número. Mas não é um número
qualquer.
Um número tende a nos cegar. Ele
é frio, estático e sequer conta a história por trás dele, mas pode ser
implacável dependendo da avaliação subjetiva que recebe. A sociedade machista
em que vivemos estabelece um padrão de vida sexual mais comedido e discreto por
parte da mulher. As normas sociais estabelecem critérios e parâmetros
diferentes para os dois sexos e, desde pequeno, você é incentivado a aceitar as
regras do jogo sem contestar (pois sempre foi assim) e agir de maneira que os
seus pais não venham a te censurar. Somos criados a partir de rótulos,
tendências e influências que guiaram a humanidade durante séculos e qualquer
mudança é desencorajada, mesmo que ela respeite a individualidade de cada um.
Quando você foge dos padrões
estipulados pelos outros (ou mesmo perante a História) e não liga para a
opinião alheia, parece que se torna um pária. Afinal, você está demonstrando
que é capaz de seguir seu próprio caminho sem “prestar contas” aos censores de
plantão e isso incomoda bastante. As pessoas não estão muito dispostas a rever
certos conceitos ou aceitar a singularidade humana, mas sim a deixar claro que
tal comportamento não é adequado... ou esperado. Em alguns casos, acredito que
lá no fundo possa haver uma inveja demagógica com tais atitudes, pois elas
podem refletir uma coragem e autonomia que gera despeito. Tamanha ousadia! Os defensores da moral e
dos bons costumes sentem-se plenamente justificados. E falando especificamente
da mulher, em geral ela parece ter de se adaptar a esse novo mundo de maneira “cautelosa”,
pois não é ingênua: sabe o que mundo “espera” dela entre quatro paredes. No
entanto, espera-se que ela mesma saiba o que deseja para si, sem pressão e sem
retaliação.
É bom deixar claro: uma pessoa
pode defender seu próprio ponto de vista (ainda mais se ele for espontâneo e haver
conforto nisso), mas é admirável desejar uma realidade em que haja mais
neutralidade com a vida sexual das pessoas sem colocar em “xeque” a reputação
delas. Nesse sentido, é fácil contextualizar o problema com as meninas.
Falando-se
da vida real, não temos como prever quanto tempo vai durar um relacionamento ou
mesmo uma “ficada”. Pode durar tanto horas, quanto muitos anos. Assim, as
pessoas têm um passado em sua intimidade e, mesmo a despeito de um número, ele
não deve servir de parâmetros conclusivos para condenar a “conduta sexual” de
alguém. Um número é uma maneira simples e injusta de reforçar o machismo.
Segundo o artigo que li, a Ohio
State University realizou uma pesquisa que reforça aquilo que disse sobre
mentir a respeito do número de parceiros(as). Os homens procuram aumentar o
número porque desejam ser vistos como “homens de verdade”, viris e com
experiência sexual; já as mulheres omitem alguns parceiros para ficarem bem na
foto como respeitáveis “garotas de família”. Detalhe interessante: a pesquisa foi realizada
com um público de estudantes universitários entre 18 e 25 anos enquanto eles
passavam por detectores de mentiras. Trata-se de um segmento jovem que pode
falar com propriedade sobre um assunto que faz parte de suas vidas.
Esse ciclo vicioso, sustentado e
reforçado por um padrão de comportamento que se autodenomina “correto” ou “ideal”,
favorece a manutenção de normas sociais que valorizam o silêncio em detrimento
de sua própria sexualidade, excluindo ou omitindo suas preferências. Com exceção das
pessoas que mantém seu posicionamento com autonomia própria (incluindo as
pessoas que defendem a castidade), isso promove insegurança (eu sou um produto
pré-concebido da sociedade), insatisfação (não posso deixar de seguir as regras
pré-estabelecidas, sob pena de pagar caro por isso) e uma desconfiança com o
pessoal que age com uma maior liberdade sexual, sem que isso sugira, necessariamente, devassidão.




