16 de julho de 2013

A solidão nossa de cada dia...



Um dos males mais sutis e menos lembrados que interfere decisivamente na vida humana e até mesmo na saúde é a solidão. Uma pessoa pode estar só e nem sempre pode se dar conta disso. Quando chega a essa conclusão ou suspeita, a tendência é assustar e ser doloroso. Uma pessoa isolada afetivamente de si mesma e dos outros adoece e pode agravar patologias cardíacas presentes.

Isso é o que diz o Dr. Dean Ornish, cardiologista e professor da Universidade da Califórnia em São Francisco. Ele conta que perguntou à sua classe quais eram os principais problemas da sociedade. A maioria citou desintegração da família, guerra nuclear (paranóia wins, rs), ecologia. Apenas um aluno citou a “solidão”. Depois o professor quis saber quantas pessoas se sentem basicamente sós. Todos levantaram as mãos. Isso surpreendeu o professor e ao mesmo tempo o fez se interessar pelo assunto.

Ele disse que um estudante de trinta e cinco anos da Nigéria compartilhou sua experiência: “Você sabe, quando cheguei à Inglaterra proveniente da Nigéria, não entendia o que as pessoas queriam dizer quando falavam que estavam sós. Somente agora, depois de estar morando nos Estados Unidos por dois anos, é que sei o que significa estar só.” É interessante notar que na cultura dele sequer havia a palavra solidão em seu vocabulário; tampouco ela existia. Poderia haver sofrimento, tristeza, pobreza, mas solidão não.

  
O que seria essa solidão? Não se trata simplesmente de estar só ou viver separado de outras pessoas, mas da ausência de uma “força”, sentimento, motivação ou consciência que une as pessoas, promovendo a empatia e a construção de saudáveis laços entre elas. A priori, pode ser que esse conceito possa parecer piegas, mas se você analisar a fundo o comportamento humano e o “sistema” em que vivemos, parece que vivemos em um ciclo vicioso.

Segundo o Dr. Dean Ornish, quanto melhor for essa percepção de que a solidão está presente e mais ajuda houver para lidar com ela de maneira construtiva, mais cedo será possível administrá-la sem tentar encobri-la com atitudes destrutivas, como as compulsões, por exemplo. Ele alega que a resolução dessa solidão deve ser trabalhada em dois níveis de atuação e de convivência: uma vertical e outra horizontal, como uma “cruz”. Falando-se do caráter vertical, isso implica em lidar com um Poder Superior bom, que ele chama de Deus. No segundo caso, significa que a pessoa precisa de “relacionamentos horizontais”, ou seja, de interagir com outros seres humanos.

Ele afirma que melhorar a qualidade da vida afetiva é uma necessidade da relação horizontalizada e que todo ser humano necessita disso, mesmo que não admita ou não se dê conta disso. Ele se refere à compaixão pelas pessoas, empatia, sensibilidade, não-competitividade, solidariedade, gentileza, compartilhar, expressar o afeto verbalizando-o e transmitindo-o em gestos também. Ao meu ver, isso sugere também o aumento da intimidade afetiva, pois a pessoa precisa estar mais predisposta a se abrir, se doar e a compartilhar. Como podemos expandir nossas “fronteiras afetivas” se olhamos primeiro para o próprio umbigo e encaramos o próximo (excetuando pessoas que fazem parte do círculo interno de nossas relações) como “alguém desconhecido que não importa”? Vale lembrar que tais relacionamentos não seriam superficiais também. Será que o amor está sendo um sentimento cada vez mais raro?



Para minha surpresa, estive lendo algumas páginas de um romance sobre Júlio César (um dos personagens mais famosos da História) e verifiquei, em uma conversa sobre o futuro de Roma entre alguns patrícios, outro ingrediente que complementa essa ideia de solidão e estabelece, por associação, um paradigma nojento para a maioria dos políticos brasileiros. Segundo um político veterano, o problema não estava nas instituições que renderam tanta glória com o passar do tempo, mas sim nos homens que as povoam. O egoísmo reina hoje onde o zelo pelo bem público florescia. Nos tempos áureos de Roma, a questão que vigorava era o que o político poderia fazer por Roma. Agora, cinicamente e gananciosamente a pergunta se invertia: "o que Roma pode fazer por mim?" Putz, estamos falando de Roma antiga ou do Brasil? (risos) Quer dizer, isso favorece um questionamento mais profundo entre as motivações dos políticos: a questão não seria saber “como” ajudar a população, mas sim o “por quê”, o que estabelece uma discussão em um âmbito mais moral do que mecânico. Daí ele arremata seu argumento, concluindo que as pessoas sofrem de um mal chamado “individualismo”. Bem, falando-se das relações humanas (e que serve para a política também), é triste e mesquinho pensar que elas (em diversos níveis) podem não vir livres de questões como “o que tenho a ganhar com isso?” ou “quais são minhas vantagens pessoais?”

Mesmo esse sistema de competição imposta no capitalismo ou contexto profissional estimula uma prática que elimina a ideia da “coletividade” e reforça o poder dos interesses pessoais. Já vivemos em uma era em que “ter grana” (ou a regra elementar do "possuir") é sinônimo de felicidade e realização; os outros que se danem. Lembro inclusive que um de meus catequistas durante o Crisma falou que esse era um dos maiores males na sociedade: o individualismo. Naturalmente, no caso havia uma abordagem mais voltada para o cristianismo, favorecendo a ideia de amar ao próximo, mas se analisarmos friamente a situação atual, veremos que isso não está de forma alguma fora da realidade.


É lógico que esse mesmo individualismo supera o contexto socioeconômico, mas estamos cientes de como ele é capaz de criar barreiras e abismos dentro da sociedade sem qualquer peso na consciência. Através dele, podemos nos sentir sozinhos mesmo em meio a uma multidão, pois cada indivíduo cuida de sua própria vida, reduzindo o ser humano à sua própria ilha de influência. Ele mesmo não faz mais parte do “todo”, mas está condenado a um ostracismo melancólico e não vê oportunidades para criar muitas "pontes" com os outros, o que gera o descontentamento, sofrimento e outros males. 

Se pensar bem, até mesmo a biologia possui uma forma mais sábia de se comportar dentro do organismo vivo (sociedade), pois mesmo cada célula (pessoa) trabalhando em sua função específica, a saúde geral não prevalece se cuidarmos apenas de aspectos singulares no sistema orgânico. Mesmo que algumas pessoas considerem que faz parte da natureza humana lutar pelos seus próprios objetivos pessoais, parece que seria mais “humano” também haver um equilíbrio nesse sentido, sem priorizar sempre a si mesmo e sem cultivar a indiferença. Vivemos em tempos cada vez mais alarmantes nesse sentido. Perceba também que essa mesma solidão possui um caráter paciente e agente também, o que confere certa responsabilidade às nossas escolhas e procedimentos. Assim, esse texto procura favorecer a reflexão e a autocrítica.

4 comentários:

  1. Muito bom Bis, adorei demais o post.

    É muito complexo avaliar o comportamento humano. Sempre estamos sujeitos a ter altos e baixos no que se trata de aspectos emocionais/psicológicos e mesmo quando de trata de relação humana. Eu ainda creio que a solidão é o que mais aflige uma pessoa e creio que, muitas características estão quase próximas à depressão. Têm pessoas que gostam de viver na solidão (pelo estilo de vida, modo de ser.. etc) e têm outras que, quando não conseguem sobrepujar isso e superá-la, acabam se afundando mais e mais, se inclinando para uma possível depressão e até mesmo, se atentarem contra as próprias vidas.

    ResponderExcluir
  2. Valeu, meu anime.

    Achei interessante você ter ressaltado essa questão a respeito do "perfil" individual de cada um. Realmente cabe aí uma avaliação para saber até onde seria saudável e/ou positivo continuar vivendo mais isolado.

    ResponderExcluir
  3. Por nada. (:

    Atualmente, me enquadro numa situação de solidão, porém não me queixo disso. Não que eu tenha me afastado das pessoas definitivamente, mas existem momentos em que me sinto melhor sem a presença da maioria delas. rs Acho que existem tantas situações que possam envolver a solidão. Pessoas que se isolaram do mundo por alguma razão, pessoas que resumem à solidão pela falta de algum companheiro (a), pessoas que mesmo estando em relacionamento estável sentem solitárias. Então, eu acho que o "estar solitário" envolve muitos fatores na vida da pessoa.

    ResponderExcluir
  4. Sim, eu entendo, mas como eu disse, independente da personalidade ou preferência de cada um, é prudente fazer uma avaliação para saber até onde a solidão está sendo benéfica e fruto de uma opção própria... e quando esse "status" permanece assim, deixando aquela forte impressão de que está sozinho (não apenas no contexto de não haver companhia) e o mundo ficou monocromático.

    ResponderExcluir