Hoje vim falar de um assunto que
fez parte de minha aborrescência e vida adulta: o rpg tradicional ou de mesa.
Já faz alguns anos que deixei de jogar, mas nada impede que um belo dia volte a me embrenhar nessas matas. (risos) Sei que existe o prático e popular rpg eletrônico também, mas existem diferenças
entre as duas modalidades, especialmente em seu “objetivo” e dinâmica. Mesmo
não sendo um especialista nisso, posso compartilhar um pouco de minha
experiência sobre essa forma de entretenimento.
Curiosamente, o próprio rpg pode
ser objeto de preconceito por pessoas mal informadas e até mesmo o jornalismo chegou
a alimentar uma fama sombria a respeito do passatempo em outros tempos. =) No
primeiro caso, já houve quem se manifestou contrariamente contra ele porque se
tratava de jogos “doidos”, “demoníacos” ou “perigosos” onde os jogadores se
envolviam com coisas erradas e algo “ruim” acontecia. Lendas urbanas. (risos)
Na segunda possibilidade, quando ocorreu crimes ou tragédias envolvendo pessoas
que tiveram contato com o rpg, o passatempo se tornava altamente suspeito e a
mídia destacava a presença de jogo “esquisito” como se ele tivesse o poder de
tornar as pessoas doentes, loucas e assassinas. Tudo idiotice. O que ocorre é
que se uma pessoa é louca, doente ou possui a maldade dentro de si, ela não
precisa de nenhum pretexto para “agir”.
Mas o que é necessário para se
jogar? Para começo de conversa, é interessante que haja um local “apropriado”
para se jogar (um ambiente onde você pode reunir algumas pessoas e mantê-las
sentadas por horas – como a sala de muitas casas – é suficiente), os dados
apropriados (existem dados “exóticos” que fogem ao padrão), papéis
(preferencialmente impressos com as fichas de personagens), material para
escrever/apagar e possivelmente alguns livros para consulta a respeito de
determinado sistema e informações (os jogos geralmente contém livros próprios
para cada tema e sistema). De resto, é importante que um dos integrantes do
grupo seja o “Mestre” (geralmente um indivíduo com mais conhecimentos técnicos a respeito do jogo) – a pessoa que vai “construir” o mundo, a história e ter
controle acerca de tudo que não diga respeito aos jogadores, além de defender as
regras. Não é de se espantar que, conforme o tempo passe, o pessoal também precise
de um intervalo para fazer alguma refeição ou lanchar. O tempo pode passar bem
depressa quando se está se divertindo. (risos)
Eu já joguei diversas vezes
assim: reunia o pessoal, cada um trazia uma história para o seu personagem (preferencialmente
por escrito) e depois criávamos a ficha de cada um ao lançar os dados para
verificar a sorte. Era comum a criação das fichas demorar horas. =/ Mas
enfim... com a maioria dos jogadores presentes e as fichas já prontas, o Mestre
já poderia iniciar o jogo.
O rpg em sua sigla significa “rolle
playing game” ou jogo de interpretação de papéis. Na prática, é exatamente
isso: uma forma de se divertir baseando-se nos moldes do teatro improvisado e na
imaginação. O jogo se desenvolve através de um sistema predeterminado (existem
muitos sistemas diferentes e é importante que pelo menos uma das pessoas no
grupo entenda o suficiente do sistema que será jogado, até para ir repassando e
familiarizando os outros com o mesmo; o processo de “aprendizado” costuma ser
natural com a experiência de jogo), onde os jogadores têm livre iniciativa para
agir conforme desejarem. Dependendo das escolhas das ações e da própria
sorte do jogador, o “destino” do personagem é lançado. Falo da sorte também
porque os integrantes do grupo utilizam dados de diferentes faces para testar o
que os números “dizem” a respeito de combates, testes de habilidades etc.
Possível amostra de grupo Live in Action
A propósito, falando-se de
interpretação, a descrição acima não implica dizer que os jogadores têm de ser
atores profissionais ou mesmo se caracterizar de acordo com o personagem,
embora isso seja natural na modalidade “live in action” (uma forma de jogo bem mais
aproximada do teatro improvisado). Na verdade, na maioria dos jogos
“convencionais” a “interpretação” consiste mais na exposição verbal da ação do
personagem (“vou subir a escada e me esconder no monte de feno”) e na
interpretação de eventuais diálogos. Logo, não é nada “complicado” ou comprometedor.
Mesmo em se tratando de pessoas tímidas, é comum a pessoa ir “relaxando”
conforme o tempo vai passando e ficando mais familiarizada com o grupo.
Uma das coisas mais fantásticas
nessa forma de entretenimento é que o jogo oferece aos participantes a
possibilidade de construir o próprio “enredo”. Desnecessário dizer, isso
fortalece o sentimento de que você é, de fato, um protagonista com livre
arbítrio. Mesmo uma das pessoas no grupo sendo o Mestre (ou Narrador ou
qualquer outra denominação que caracterize o “árbitro” ou “chefe” do jogo), não
se trata de um jogo de tabuleiro ou mesmo um “teatro” com falas decoradas e um desenrolar
“previsível” da história. Como já disse antes, o Mestre irá criar a história
por si mesmo e irá determinar basicamente TUDO o que acontece com o grupo de
jogadores (com bom senso, claro), sem guiar ou interferir na decisão de ninguém (em circunstâncias
normais). Além disso, será responsável pela interpretação de todos os
personagens que não são controlados por jogadores. Logo, é perceptível que
essa pessoa é vital para haver qualquer sessão de rpg. (risos) Vou colocar um
exemplo simples e prático de como o jogo pode mudar de “atmosfera”: se a
história estiver se passando em um contexto medieval e o grupo, muito
espertinho e ganancioso, quiser assaltar uma taverna para obter dinheiro fácil,
é lógico pensar que o Mestre possivelmente irá trazer complicações e
dificuldades para o pessoal. Pode ser, inclusive, que o grupo passe a se tornar
“procurado” pelos feudos ou reinos, o que transmite outra adrenalina ao jogo. Como
diz aquela lei da física, toda ação leva a uma reação. Daí também a importância
de haver Mestres que saibam oferecer desafios justos e recompensas adequadas
aos jogadores.
Um grupo super exótico...
Fora o contexto acima, falemos de
objetivos. Geralmente, inclusive citando jogos eletrônicos, é comum haver o
objetivo de “sobreviver”, “ficar mais poderoso”, “matar os inimigos”,
“detonar o Chefão”, “salvar o mundo” e assim por diante. Trata-se de uma linha
de ação que estabelece um começo e um fim (até “zerar” ou finalizar o estágio,
por exemplo), tendo o risco de obter um trágico “game over” no caminho. (risos)
Logo, costuma haver mais o “desafio” para avaliar se irá vencer ou perder,
simplesmente. No rpg tradicional podem haver metas definidas, mas a ideia é não
haver um “fim” ou “conclusão” para história. Mesmo que o seu personagem venha a morrer, é sempre possível fazer uma nova ficha de personagem e se juntar futuramente ao grupo por "acaso" ou não. As "baixas" são naturais, mesmo que seja frustrante perder um antigo personagem. Bem, mas até o grupo cumprir aquela “missão
especial”, a tendência é já haverem outras “quests” em “espera” ou mesmo
aparecerem outros fatos imprevistos posteriores que necessitem da atenção dos
aventureiros. A imaginação é suficientemente capaz para manter qualquer grupo
muito bem “ocupado”. Aliás, é comum um grupo ter motivações diferentes dentro
de si, falando-se individualmente de cada personagem. Um membro pode querer
fazer justiça, outro pode ser maluco por fama e riqueza, outro pode ser apenas
um mercenário pago e assim por diante. Tudo é muito versátil nesse sentido e,
embora às vezes essa “diversidade” possa causar sérios conflitos no contexto
cooperativo, a tendência é isso enriquecer a jornada dos jogadores.
E falando em motivações
diferentes, o que acha de “vivenciar” a existência de seu personagem de maneira
mais abrangente? Você pode se “apaixonar” por outro, pode se tornar um grande amigo
(ou inimigo jurado) de alguma pessoa, pode arranjar um trabalho, pode se alistar
na Guarda Real, pode ser aleijado em combate, pode ser um traidor em sua pátria, uma magia ou acidente pode desfigurá-lo
permanentemente, algum fato traumático pode modificar sua personalidade e/ou
suas motivações, seu passado pode ser negro e vergonhoso etc. Logo, dependendo da versatilidade do Mestre, é possível
haver jogos que procurem falar de outros aspectos da vida do seu personagem que
fazem parte de sua história, mas não precisam ser necessariamente ligados ou relevantes à “aventura”.
Sem exageros, isso pode tornar o jogo mais interessante. Aliás, as próprias peculiaridades de algum personagem podem inspirar futuras "quests".
Bem, que tal falarmos da
variedade sobre os “tipos” de jogos disponíveis quanto ao seu “cenário” ou tema?
Ele pode abordar fantasia medieval (como no desenho Caverna do Dragão), pode
ser futurista (vide Star Wars), pode ser “sombrio” (como ao utilizar vampiros)
e assim por diante. Como pode ver, os temas inspirados em filmes, seriados, desenhos animados,
animes, revistas em quadrinhos etc. podem ser “adaptados” para serem jogados em
rpg, se é que (ainda) não receberam uma “versão oficial”. Enfim, tem jogo para todo
tipo de preferência.
Outro detalhe: conforme o jogo se
desenvolve, é natural haverem situações em que o conhecimento acerca de certas
áreas específicas (como física, engenharia, matemática, arquitetura, química,
astronomia etc.) podem ser utilizadas – mesmo que parcialmente – dentro do jogo
para beneficiá-lo ou mesmo para customizar/aperfeiçoar o sistema, conforme o
julgamento do Mestre. Isso não quer dizer que todo mundo precise ser um gênio
ou uma enciclopédia ambulante, mas sim que podem haver trocas de conhecimentos
dentro do jogo que podem ajudá-lo a ficar “melhor” (por vezes, adaptando uma
regra para se tornar mais realista e/ou justa), favorecendo até mesmo uma
função pedagógica enquanto se diverte. Conforme você tem contato com outras
matérias que desconhece ou pouco entende, é natural haver algum tipo de
aprendizado, mesmo que superficial. Além disso, pense na função de um escritor:
se você tiver de escrever um romance, é possível que tenha contato com assuntos
envolvendo diferentes áreas de conhecimento. Para escrever sobre isso com
propriedade e não falar asneira (até porque existem leitores que entendem do
assunto em questão), é importante haver pesquisas e estudos para embasar sua
narrativa.
Da mesma forma, podem existem “histórias”
em que o grupo tenha de utilizar mais o cérebro, a esperteza ou o traquejo social do que a simples
força bruta, por exemplo. Aliás, isso supera bastante a ideia de que você só tem de lutar
e sobreviver. A simples interação social pode conter suficientes “emoções”.
(risos) E não deixa de ser legal notar que determinado jogador gosta de
interpretar e usar da sagacidade para se dar bem.
Vale ressaltar que o próprio Ministério
da Educação apóia e incentiva o rpg como método de ensino, sendo uma “plataforma”
usada para aguçar a cooperação mútua e o raciocínio lógico dos estudantes. Não vou entrar em detalhes a respeito porque o texto já está enorme. Se
estiver curioso(a), acesse o link a seguir que vai trazer mais informações sobre
esse aspecto do rpg como tema de um projeto de TCC: http://prope.unesp.br/xxi_cic/27_22405988836.pdf
Fora todos os aspectos já
mencionados, o jogo favorece bastante o uso da imaginação/criatividade (por
motivos mais do que óbvios), tem certa aplicação “terapêutica” (você é
convidado a sair do mundo real e vivenciar outros ares utilizando basicamente a
própria mente) e promete diversão (mesmo porque não devem faltar ingredientes
que favoreçam o bom humor). Outra resultante fascinante a ser destacada é o crescente vínculo e
história do grupo em si. Conforme o tempo passa, é delicioso relembrar fatos que ocorreram com
seus semelhantes e acompanhar o progresso de seu próprio personagem. De maneira geral, você lê um livro em que é um dos
protagonistas, mas cujo enredo ninguém pode prever. Nem mesmo o Mestre pode ter certeza, pois não pode ler a mente dos jogadores. (risos)
Pose para foto.









Mto legal o post, Bis. xD Você continua jogando ainda? Será que existe Eu sabia sobre o funcionamento do RPG superficialmente, pois me recordo que, qdo estava no 1º colegial, eu tive uma amiga que havia se viciado em RPG por causa do namorado, e ela até havia me explicado como era mais ou menos.
ResponderExcluirAlém disso, achei muito interessante o projeio de TCC sobre o RPG, inclusive é da universidade onde eu estudei. D: Nunca pude imaginar
Obrigado, meu anime. E olha que procurei resumir o que pretendida dizer. Já fazem alguns anos que deixei de jogar o rpg... essencialmente por duas razões: a) ocorreu de jogos terminarem de maneira precoce por diversas razões. Isso me frustrou. Tinha de jogar meu personagem no "lixo" e voltar com novos personagens; e b) a galerinha só queria jogar rpg medieval fantástico (D&D). Eu já estava saturado disso. Estava animado para jogar Vampire, mas não vi nenhum grupo suficientemente coeso com ele. Mesmo assim, tenho contato com pessoas que jogam isso e, um dia, acredito que poderei voltar à ativa quando houverem circunstâncias mais favoráveis.
ExcluirQuanto ao aspecto "sério" e benéfico do rpg, isso não me surpreende. É bem verdade que deve ser delicioso falar sobre um tema que a pessoa entende e se diverte. Mas uma vez descoberto que o jogo tem sim uma função pedagógica concreta, isso adquire outra importância. Legal também é observar que existem professores que podem orientar acerca desses assuntos sem preconceito, possuindo a mente aberta. (risos)