12 de julho de 2013

Conheça o RPG tradicional...






Hoje vim falar de um assunto que fez parte de minha aborrescência e vida adulta: o rpg tradicional ou de mesa. Já faz alguns anos que deixei de jogar, mas nada impede que um belo dia volte a me embrenhar nessas matas. (risos) Sei que existe o prático e popular rpg eletrônico também, mas existem diferenças entre as duas modalidades, especialmente em seu “objetivo” e dinâmica. Mesmo não sendo um especialista nisso, posso compartilhar um pouco de minha experiência sobre essa forma de entretenimento.

Curiosamente, o próprio rpg pode ser objeto de preconceito por pessoas mal informadas e até mesmo o jornalismo chegou a alimentar uma fama sombria a respeito do passatempo em outros tempos. =) No primeiro caso, já houve quem se manifestou contrariamente contra ele porque se tratava de jogos “doidos”, “demoníacos” ou “perigosos” onde os jogadores se envolviam com coisas erradas e algo “ruim” acontecia. Lendas urbanas. (risos) Na segunda possibilidade, quando ocorreu crimes ou tragédias envolvendo pessoas que tiveram contato com o rpg, o passatempo se tornava altamente suspeito e a mídia destacava a presença de jogo “esquisito” como se ele tivesse o poder de tornar as pessoas doentes, loucas e assassinas. Tudo idiotice. O que ocorre é que se uma pessoa é louca, doente ou possui a maldade dentro de si, ela não precisa de nenhum pretexto para “agir”.


Mas o que é necessário para se jogar? Para começo de conversa, é interessante que haja um local “apropriado” para se jogar (um ambiente onde você pode reunir algumas pessoas e mantê-las sentadas por horas – como a sala de muitas casas – é suficiente), os dados apropriados (existem dados “exóticos” que fogem ao padrão), papéis (preferencialmente impressos com as fichas de personagens), material para escrever/apagar e possivelmente alguns livros para consulta a respeito de determinado sistema e informações (os jogos geralmente contém livros próprios para cada tema e sistema). De resto, é importante que um dos integrantes do grupo seja o “Mestre” (geralmente um indivíduo com mais conhecimentos técnicos a respeito do jogo) – a pessoa que vai “construir” o mundo, a história e ter controle acerca de tudo que não diga respeito aos jogadores, além de defender as regras. Não é de se espantar que, conforme o tempo passe, o pessoal também precise de um intervalo para fazer alguma refeição ou lanchar. O tempo pode passar bem depressa quando se está se divertindo. (risos)

Eu já joguei diversas vezes assim: reunia o pessoal, cada um trazia uma história para o seu personagem (preferencialmente por escrito) e depois criávamos a ficha de cada um ao lançar os dados para verificar a sorte. Era comum a criação das fichas demorar horas. =/ Mas enfim... com a maioria dos jogadores presentes e as fichas já prontas, o Mestre já poderia iniciar o jogo.


O rpg em sua sigla significa “rolle playing game” ou jogo de interpretação de papéis. Na prática, é exatamente isso: uma forma de se divertir baseando-se nos moldes do teatro improvisado e na imaginação. O jogo se desenvolve através de um sistema predeterminado (existem muitos sistemas diferentes e é importante que pelo menos uma das pessoas no grupo entenda o suficiente do sistema que será jogado, até para ir repassando e familiarizando os outros com o mesmo; o processo de “aprendizado” costuma ser natural com a experiência de jogo), onde os jogadores têm livre iniciativa para agir conforme desejarem. Dependendo das escolhas das ações e da própria sorte do jogador, o “destino” do personagem é lançado. Falo da sorte também porque os integrantes do grupo utilizam dados de diferentes faces para testar o que os números “dizem” a respeito de combates, testes de habilidades etc.

Possível amostra de grupo Live in Action

A propósito, falando-se de interpretação, a descrição acima não implica dizer que os jogadores têm de ser atores profissionais ou mesmo se caracterizar de acordo com o personagem, embora isso seja natural na modalidade “live in action” (uma forma de jogo bem mais aproximada do teatro improvisado). Na verdade, na maioria dos jogos “convencionais” a “interpretação” consiste mais na exposição verbal da ação do personagem (“vou subir a escada e me esconder no monte de feno”) e na interpretação de eventuais diálogos. Logo, não é nada “complicado” ou comprometedor. Mesmo em se tratando de pessoas tímidas, é comum a pessoa ir “relaxando” conforme o tempo vai passando e ficando mais familiarizada com o grupo.


Uma das coisas mais fantásticas nessa forma de entretenimento é que o jogo oferece aos participantes a possibilidade de construir o próprio “enredo”. Desnecessário dizer, isso fortalece o sentimento de que você é, de fato, um protagonista com livre arbítrio. Mesmo uma das pessoas no grupo sendo o Mestre (ou Narrador ou qualquer outra denominação que caracterize o “árbitro” ou “chefe” do jogo), não se trata de um jogo de tabuleiro ou mesmo um “teatro” com falas decoradas e um desenrolar “previsível” da história. Como já disse antes, o Mestre irá criar a história por si mesmo e irá determinar basicamente TUDO o que acontece com o grupo de jogadores (com bom senso, claro), sem guiar ou interferir na decisão de ninguém (em circunstâncias normais). Além disso, será responsável pela interpretação de todos os personagens que não são controlados por jogadores. Logo, é perceptível que essa pessoa é vital para haver qualquer sessão de rpg. (risos) Vou colocar um exemplo simples e prático de como o jogo pode mudar de “atmosfera”: se a história estiver se passando em um contexto medieval e o grupo, muito espertinho e ganancioso, quiser assaltar uma taverna para obter dinheiro fácil, é lógico pensar que o Mestre possivelmente irá trazer complicações e dificuldades para o pessoal. Pode ser, inclusive, que o grupo passe a se tornar “procurado” pelos feudos ou reinos, o que transmite outra adrenalina ao jogo. Como diz aquela lei da física, toda ação leva a uma reação. Daí também a importância de haver Mestres que saibam oferecer desafios justos e recompensas adequadas aos jogadores.

Um grupo super exótico...

Fora o contexto acima, falemos de objetivos. Geralmente, inclusive citando jogos eletrônicos, é comum haver o objetivo de “sobreviver”, “ficar mais poderoso”, “matar os inimigos”, “detonar o Chefão”, “salvar o mundo” e assim por diante. Trata-se de uma linha de ação que estabelece um começo e um fim (até “zerar” ou finalizar o estágio, por exemplo), tendo o risco de obter um trágico “game over” no caminho. (risos) Logo, costuma haver mais o “desafio” para avaliar se irá vencer ou perder, simplesmente. No rpg tradicional podem haver metas definidas, mas a ideia é não haver um “fim” ou “conclusão” para história. Mesmo que o seu personagem venha a morrer, é sempre possível fazer uma nova ficha de personagem e se juntar futuramente ao grupo por "acaso" ou não. As "baixas" são naturais, mesmo que seja frustrante perder um antigo personagem. Bem, mas até o grupo cumprir aquela “missão especial”, a tendência é já haverem outras “quests” em “espera” ou mesmo aparecerem outros fatos imprevistos posteriores que necessitem da atenção dos aventureiros. A imaginação é suficientemente capaz para manter qualquer grupo muito bem “ocupado”. Aliás, é comum um grupo ter motivações diferentes dentro de si, falando-se individualmente de cada personagem. Um membro pode querer fazer justiça, outro pode ser maluco por fama e riqueza, outro pode ser apenas um mercenário pago e assim por diante. Tudo é muito versátil nesse sentido e, embora às vezes essa “diversidade” possa causar sérios conflitos no contexto cooperativo, a tendência é isso enriquecer a jornada dos jogadores.

E falando em motivações diferentes, o que acha de “vivenciar” a existência de seu personagem de maneira mais abrangente? Você pode se “apaixonar” por outro, pode se tornar um grande amigo (ou inimigo jurado) de alguma pessoa, pode arranjar um trabalho, pode se alistar na Guarda Real, pode ser aleijado em combate, pode ser um traidor em sua pátria, uma magia ou acidente pode desfigurá-lo permanentemente, algum fato traumático pode modificar sua personalidade e/ou suas motivações, seu passado pode ser negro e vergonhoso etc. Logo, dependendo da versatilidade do Mestre, é possível haver jogos que procurem falar de outros aspectos da vida do seu personagem que fazem parte de sua história, mas não precisam ser necessariamente ligados ou relevantes à “aventura”. Sem exageros, isso pode tornar o jogo mais interessante. Aliás, as próprias peculiaridades de algum personagem podem inspirar futuras "quests".

  
Bem, que tal falarmos da variedade sobre os “tipos” de jogos disponíveis quanto ao seu “cenário” ou tema? Ele pode abordar fantasia medieval (como no desenho Caverna do Dragão), pode ser futurista (vide Star Wars), pode ser “sombrio” (como ao utilizar vampiros) e assim por diante. Como pode ver, os temas inspirados em filmes, seriados, desenhos animados, animes, revistas em quadrinhos etc. podem ser “adaptados” para serem jogados em rpg, se é que (ainda) não receberam uma “versão oficial”. Enfim, tem jogo para todo tipo de preferência.

Outro detalhe: conforme o jogo se desenvolve, é natural haverem situações em que o conhecimento acerca de certas áreas específicas (como física, engenharia, matemática, arquitetura, química, astronomia etc.) podem ser utilizadas – mesmo que parcialmente – dentro do jogo para beneficiá-lo ou mesmo para customizar/aperfeiçoar o sistema, conforme o julgamento do Mestre. Isso não quer dizer que todo mundo precise ser um gênio ou uma enciclopédia ambulante, mas sim que podem haver trocas de conhecimentos dentro do jogo que podem ajudá-lo a ficar “melhor” (por vezes, adaptando uma regra para se tornar mais realista e/ou justa), favorecendo até mesmo uma função pedagógica enquanto se diverte. Conforme você tem contato com outras matérias que desconhece ou pouco entende, é natural haver algum tipo de aprendizado, mesmo que superficial. Além disso, pense na função de um escritor: se você tiver de escrever um romance, é possível que tenha contato com assuntos envolvendo diferentes áreas de conhecimento. Para escrever sobre isso com propriedade e não falar asneira (até porque existem leitores que entendem do assunto em questão), é importante haver pesquisas e estudos para embasar sua narrativa. 


Da mesma forma, podem existem “histórias” em que o grupo tenha de utilizar mais o cérebro, a esperteza ou o traquejo social do que a simples força bruta, por exemplo. Aliás, isso supera bastante a ideia de que você só tem de lutar e sobreviver. A simples interação social pode conter suficientes “emoções”. (risos) E não deixa de ser legal notar que determinado jogador gosta de interpretar e usar da sagacidade para se dar bem.

Vale ressaltar que o próprio Ministério da Educação apóia e incentiva o rpg como método de ensino, sendo uma “plataforma” usada para aguçar a cooperação mútua e o raciocínio lógico dos estudantes. Não vou entrar em detalhes a respeito porque o texto já está enorme. Se estiver curioso(a), acesse o link a seguir que vai trazer mais informações sobre esse aspecto do rpg como tema de um projeto de TCC: http://prope.unesp.br/xxi_cic/27_22405988836.pdf

Fora todos os aspectos já mencionados, o jogo favorece bastante o uso da imaginação/criatividade (por motivos mais do que óbvios), tem certa aplicação “terapêutica” (você é convidado a sair do mundo real e vivenciar outros ares utilizando basicamente a própria mente) e promete diversão (mesmo porque não devem faltar ingredientes que favoreçam o bom humor). Outra resultante fascinante a ser destacada é o crescente vínculo e história do grupo em si. Conforme o tempo passa, é delicioso relembrar fatos que ocorreram com seus semelhantes e acompanhar o progresso de seu próprio personagem. De maneira geral, você lê um livro em que é um dos protagonistas, mas cujo enredo ninguém pode prever. Nem mesmo o Mestre pode ter certeza, pois não pode ler a mente dos jogadores. (risos)

Pose para foto.

2 comentários:

  1. Mto legal o post, Bis. xD Você continua jogando ainda? Será que existe Eu sabia sobre o funcionamento do RPG superficialmente, pois me recordo que, qdo estava no 1º colegial, eu tive uma amiga que havia se viciado em RPG por causa do namorado, e ela até havia me explicado como era mais ou menos.

    Além disso, achei muito interessante o projeio de TCC sobre o RPG, inclusive é da universidade onde eu estudei. D: Nunca pude imaginar

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    1. Obrigado, meu anime. E olha que procurei resumir o que pretendida dizer. Já fazem alguns anos que deixei de jogar o rpg... essencialmente por duas razões: a) ocorreu de jogos terminarem de maneira precoce por diversas razões. Isso me frustrou. Tinha de jogar meu personagem no "lixo" e voltar com novos personagens; e b) a galerinha só queria jogar rpg medieval fantástico (D&D). Eu já estava saturado disso. Estava animado para jogar Vampire, mas não vi nenhum grupo suficientemente coeso com ele. Mesmo assim, tenho contato com pessoas que jogam isso e, um dia, acredito que poderei voltar à ativa quando houverem circunstâncias mais favoráveis.

      Quanto ao aspecto "sério" e benéfico do rpg, isso não me surpreende. É bem verdade que deve ser delicioso falar sobre um tema que a pessoa entende e se diverte. Mas uma vez descoberto que o jogo tem sim uma função pedagógica concreta, isso adquire outra importância. Legal também é observar que existem professores que podem orientar acerca desses assuntos sem preconceito, possuindo a mente aberta. (risos)

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